GAZETA DO POVO, Domingo 21/03/2010   setas, ayahuasca, daime, instituto ayahuascaVoltar


 

VIDA E CIDADANIA

Religião

Santo Daime: usos, restrições e preconceitos

Ainda se sabe muito pouco sobre os efeitos do ayahuasca. As pesquisas científicas são recentes e os tabus, enormes

Publicado em 21/03/2010 | Pollianna Milan

 

Fotos: Marcelo Elias/Gazeta do Povo

A morte do cartunista Glauco Vil­­las Boas, na madrugada do dia 12, co­­locou em destaque a religião daimista e o chá ayahuasca. O cartunista foi fundador de uma igreja de nome Céu de Maria, que se­­gue os preceitos do Santo Daime. Misturando a religião com o assassinato e o tabu sobre o uso do chá, as informações nem sempre são acer­­tadas. Para tentar desmistificar o assunto, a reportagem conversou com especialistas.

A história do ayahuasca é antiga. Começou por volta de 1930 e se confunde com a colonização e a urba­­nização do Acre (veja mais nesta página). Mas só recentemente o chá passou a ser estudado e, mesmo assim, ainda não há registros científicos totalmente confiáveis. Do ponto de vista farmacológico, o ayahuasca (que é a mistura do cipó caapi e da folha chacrona) contém substâncias psicoativas (como a dimetiltriptamina – DMT), por isso só é permitido o seu uso nos cultos religiosos. É proibido comercializar (a não ser para os cultos) e fazer publicidade.

Essa regulamentação foi feita em 2006 pe­­lo Conselho Nacional Antidro­gas (Conad) e foi publicada em ja­­neiro deste ano. Além de restringir o uso do chá à religião, o Conad não indica o consumo da substância con­­comitantemente a medicamentos antidepressivos, álcool, drogas ilícitas e para pessoas que tenham algumas doenças mentais como esquizofrenia, psicose e bipolaridade. “O chá atua em al­­gumas áreas cerebrais, o que pode agravar o problema dessas doenças ou do uso de drogas. Por isso, nesses casos, ele é contraindicado”, afirma o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira Filho, que fez parte do grupo do Conad que criou a regulamentação.

Como a expressão do culto religioso e da fé é um direito constitucional, mulheres grávidas e crianças são liberadas para tomar o chá, mas o psiquiatra não recomenda o uso justamente porque não existem estudos que comprovem se há ou não algum tipo de problema. “O feto tem uma estrutura muito delicada e o chá atua no cérebro, por isso não recomendo. Mas também não vamos proibir”, diz. Sil­­veira fundou o primeiro grupo cien­­tífico brasileiro, na Univer­si­­dade Federal de São Paulo, que es­­tuda os efeitos do ayahuasca, mas lembra que as poucas pesquisas desenvolvidas até agora só foram possíveis graças ao governo americano, que bancou os custos. “O or­­ça­­mento é reduzido e o governo bra­­sileiro não tem verbas para es­­sa área”, comenta. Os experimentos, até hoje, foram testados apenas em ratos. “Nos ratos, a ingestão de 50 vezes a dose tomada em um culto é letal. Mas isso também é relativo, porque a concentração da substância depende muito de como o chá foi preparado. Não há uma regulamentação sobre isso.”

A antropóloga Beatriz Labate, que estuda o assunto há 14 anos e tem sete livros publicados sobre drogas em geral, lembra que os grupos que usam o chá (veja quais são nesta página) têm uma visão responsável sobre o uso, por isso escolhem a dose em função de diversos elementos, como idade, peso, sexo, há quanto tempo frequenta a igreja e como está a saúde psicológica da pessoa.

“Existe um critério de seleção, um conhecimento empírico acumulado que tem valor. O sucesso e as conquistas são infinitamente maiores que os possíveis problemas”, afirma. Para ela, é preciso haver mais pesquisas que avaliem melhor os riscos e benefícios. “Sempre se parte de um pressuposto negativo, de que as drogas fazem mal. Caso não se prove que fazem mal, se assume que fazem. Isto deveria ser invertido: primeiro se prova e, se forem ruins, de­­pois se proíbe.”

O chá também não deve ser usado com fim terapêutico, se­­gundo o Conad. Alguns fiéis di­­zem que encontraram a cura do ví­­cio em drogas por meio do ayahuasca, mas Silveira lembra que só o chá em si não é prova de cura. “Isto é respeitado porque existe, por trás de tudo, o lado religioso, a crença”, explica.

As pessoas interessadas em ex­­pe­­rimentar o chá preenchem uma ficha declarando não ter ne­­nhuma característica que se relacione com as restrições impostas pelo Conad, além de uma palestra sobre o que é o ayahuasca e, de­­pois, podem fazer parte do culto. “É possível que pessoas procurem o chá por curiosidade, pois esse anseio por experiência é algo legítimo e os grupos sabem lidar com isso. E isso não se torna um problema porque, quem não tem a identificação religiosa, dificilmente permanece nesses lugares”, afirma Beatriz.


Mistura do cipó caapi e da folha chacrona, o uso do ayahuasca é permitido apenas nos cultos religiosos
Consumo

Controle é feito pelos grupos

Não há um controle rígido sobre o uso do chá, até porque, acredita-se, não existe uma comercialização ilícita do daime no Brasil. O Conselho Nacional Antidrogas (Conad) proíbe o uso do ayahuasca fora dos cultos religiosos. Quem for pego usando o chá na rua pode ser questionado pela polícia. Mas assim como não há uma pesquisa científica apurada sobre os efeitos do daime, também não existe legislação que condene alguém por vender ou usar o chá fora das religiões. O advogado criminalista André Alves Wlodarczyk diz que o que existe legalmente é a repressão ao uso de entorpecentes e narcóticos, que são listados como tais pelo Ministério da Saúde. “O ayahuasca não é considerado entorpecente, por isso não é crime usá-lo. Apenas se coíbe o uso banalizado por causa da resolução do Conad.” (PM)

 

Religião foi criada no Acre

O chá começou a ser usado por volta de 1930, no Acre, por Rai­mun­­do Irineu Serra, o mestre Iri­­neu. Depois de 10 anos ele ba­­tizou o ayahuasca de Santo Dai­­me. A primeira organização daimista foi formada neste período, mas somente na década de 70 ela se espalhou pelo mundo. A religião é associada a diversos elementos: o cristianismo (católico popular), as religiões afro, o esoterismo, o xamanismo indígena e os kardecistas.

Existem três religiões que são consideradas mais tradicionais – além do Santo Daime, há a União do Ve­­getal e a Barquinha. “Novas correntes de religiões urbanas foram criadas a partir da chegada dessas três nas grandes cidades. Elas dialogam com matrizes orientalistas, terapias humanistas, meditação, expressões artísticas. Quando chegam aos centros urbanos fazem novas combinações, gerando novas vertentes. Todas são entendidas como parte da tradição ayahuasqueira, algumas mais antigas, outras não”, afirma a antropóloga Beatriz Labate.

O antropólogo da Univer­sidade Federal da Bahia Edward Macrae lembra ainda que o Santo Daime serviu, no início, como instrumento de integração de uma população desorientada. Na época do colapso da economia da borracha, os seringueiros saíram da floresta e foram para as comunidades, na periferia. Por meio do chá e do ritual é que eles conseguiram se unir e se adaptar à vida urbana.

A palavra ayahuasca era usada pelos antigos incas e significa cipó das almas. O chá é associado à religião porque ele ajudaria a expandir a consciência. Segundo os fiéis, ele age de diferentes formas de acordo com cada pessoa e auxilia na busca pelo en­­ten­dimento do eu interior, do autoconhecimento. (PM)